Por Amarildo Adriano
Projetado em 1986, o Galpãozinho foi idealizado como um espaço de múltiplas funções, mas rapidamente se tornou muito mais do que isso. Localizado no coração do Gama, ao lado da rodoviária, assumiu o papel de ponto central para a música e a cultura de Brasília. Durante os anos 1990, consolidou-se como um marco da cena underground, servindo de palco para bandas emergentes e eventos culturais alternativos em uma época em que os grandes eventos estavam concentrados no Plano Piloto, muitas vezes inacessíveis a artistas e públicos periféricos.
Os shows realizados no Galpãozinho adquiriram um status quase mítico entre os frequentadores e fãs da cena alternativa. Comparado ao CBGB, o famoso clube nova-iorquino, devido à sua relevância e impacto cultural, o Galpãozinho tornou-se berço de inúmeros talentos. Bandas locais encontraram ali uma plataforma essencial para se projetarem, e algumas delas chegaram a ganhar reconhecimento internacional como é o caso do Besthoven, DFC, ARD e Violator. Seu pequeno palco foi cenário de momentos inesquecíveis que ajudaram a moldar a identidade cultural do Gama e região.
Um Refúgio para o Underground
Durante o auge da cultura rock em Brasília, que a projetou como a Capital do Rock, o Galpãozinho emergiu como um refúgio alternativo para os movimentos punk, heavy metal, gótico e outras expressões underground. Enquanto o Plano Piloto centralizava as produções culturais, geralmente com custos elevados, o Galpãozinho oferecia uma alternativa viável e inclusiva para artistas independentes e produtores locais.
Sua localização estratégica, ao lado da rodoviária do Gama, permitiu que o espaço fosse frequentado não apenas por moradores locais, mas também por pessoas de outras cidades do Distrito Federal e do entorno. Com capacidade para apenas 200 pessoas e sem cobrança de taxas para sua utilização, tornou-se essencial para bandas autorais em início de carreira e para eventos culturais que buscavam uma alternativa acessível. Essa simplicidade e acessibilidade transformaram o Galpãozinho em um epicentro de produções DIY (faça você mesmo), democratizando a cena cultural da região.
A disputa por datas no espaço era intensa. Além de ser um dos poucos locais acessíveis na periferia, o Galpãozinho oferecia uma atmosfera única. Sua proximidade com o público criava um ambiente intimista, onde a conexão entre artistas e espectadores era direta e visceral, algo que se tornou uma marca do local. Com o palco baixo o artista ficava cara a cara com o seu publico, tornando uma experiencia unica.


Diversidade e Inclusão Cultural
Embora seja lembrado principalmente como um ponto de encontro para o rock e o punk, o Galpãozinho não se limitou a esses gêneros. Ao longo dos anos, acolheu uma diversidade impressionante de atividades culturais e comunitárias, incluindo apresentações teatrais, cultos religiosos, gravações de CDs e DVDs ao vivo, e eventos voltados para a população local. Essa versatilidade destacou o espaço como um importante polo cultural do Gama.
Por ser o único espaço cultural público da cidade de pequeno porte, o Galpãozinho carregava a responsabilidade de atender a diferentes demandas artísticas e sociais. Mesmo enfrentando precariedades estruturais, como infiltrações, banheiros inadequados e camarins ocupados por terceiros, o espaço continuou a ser sinônimo de resistência cultural e inclusão.
Reconhecimento Internacional
A relevância do Galpãozinho ultrapassou as fronteiras locais, tornando-se um ponto importante no circuito internacional de shows underground. Apesar das limitações estruturais, recebeu bandas de renome global, colocando Brasília no mapa da cena alternativa mundial. Entre os artistas que se apresentaram no espaço estão:
- Rattus (Finlândia) – 2007, 2013 e 2023
- Terveet Kädet (Finlândia) – 2014 e 2023
- Força Macabra (Finlândia) – 2006
- Civil Olydnad (Suécia) – 2009
- Rövsvett (Suécia) – 2016
- Stoma (Holanda) – 2012
- Onanizer (República Tcheca) – 2008
- Overloaded (República Tcheca) – 2014
- See You in Hell (República Tcheca) – 2013
- Steve Drewett (Reino Unido) – 2014
Essas apresentações transformaram o Galpãozinho em um ponto de encontro para fãs do rock e do punk, reforçando sua importância como espaço de intercâmbio cultural. Sua inclusão, em 2021, na Rota do Rock — projeto da Secretaria de Turismo do Distrito Federal que celebra a rica herança musical de Brasília —, consolidou ainda mais seu papel como parte do patrimônio cultural da cidade.
Resistência e Declínio
Com o passar dos anos, a falta de investimentos e manutenção começou a cobrar seu preço. Em 2009, um grupo de produtores locais lançou o movimento “Galpãozinho Tem Conserto”, uma campanha comunitária por melhorias no espaço. A mobilização resultou em uma reforma parcial em 2012, que trouxe um breve período de revitalização e novos eventos. No entanto, desde então, não houve novos investimentos significativos.
A deterioração do espaço, combinada com a falta de apoio institucional, levou à redução drástica na frequência de eventos e ao afastamento de artistas e produtores culturais. O que já foi um centro pulsante de criatividade e resistência agora luta para evitar o abandono completo.
Um Futuro Possível
Apesar de suas dificuldades, o Galpãozinho permanece vivo na memória coletiva como um símbolo da resistência cultural do Gama. Resgatar sua glória exige um esforço conjunto entre poder público, comunidade e produtores culturais. Com os investimentos certos, ele pode voltar a ser um epicentro de criatividade e inclusão, inspirando novas gerações e reafirmando seu papel como um espaço fundamental para a cultura alternativa no Distrito Federal.
O legado do Galpãozinho transcende seu espaço físico. Ele é uma prova de que a arte pode prosperar mesmo em condições adversas, e de que, com vontade e apoio, é possível transformar realidades. Resgatar o Galpãozinho é não apenas preservar a história, mas garantir um futuro vibrante para a cultura do Gama e de Brasília.