
Kaipora, Guitarrista e uma das mentes por trás da banda.


Por: Amarildo Adriano
Brasília sempre foi um terreno fértil para a música underground, e a Murderess surge como um novo e potente nome na cena. Misturando death, doom e black metal, a banda traz uma proposta única e urgente: usar o metal como veículo para contar histórias de resistência feminina, abordando temas sombrios e viscerais que ecoam com a realidade de mulheres em todo o mundo.
Com letras marcantes e uma sonoridade brutal, a Murderess desafia não apenas os padrões musicais, mas também as narrativas tradicionais do metal, subvertendo simbolismos e trazendo uma nova perspectiva para a cena. Em seu EP de estreia, “Time to Kill”, o grupo mergulha em temas como violência de gênero, empoderamento feminino e referências históricas e mitológicas, criando uma obra tão pesada quanto significativa.
Nesta entrevista exclusiva, com a Guitarrista e uma das mentes por trás da banda, Kaipora, conversamos sobre o início da banda, suas influências, o processo criativo por trás do EP e a importância da representatividade feminina no metal extremo. Confira como Kaipora, Cláudia e os demais integrantes estão escrevendo uma nova página na história do metal brasiliense e internacional.
Falem um pouco sobre o início da banda. Como a formação atual foi escolhida, e como cada integrante trouxe sua energia e visão para a Murderess?
O início da Murderess foi um momento muito especial. Eu, Kaipora, e a Cláudia nos juntamos para realizar algo que há muito tempo queríamos. Assim que nos conhecemos já decidimos que iriamos tocar juntas. Cláudia veio até minha casa, mostrei alguns riffs e, como ela gostou, seguimos em frente. Começamos a escrever letras e programar as baterias. Dois meses depois, o Pedro se juntou a nós. Ele ouviu nossas guias e decidiu entrar na banda ele é muito criativo, e assim mudamos muita coisa no arranjo e no andamento das músicas. Combinando o estilo de cada um, criamos nossa identidade e
compusemos a maioria das músicas logo de cara. Sabíamos que precisaríamos de um baixista para as apresentações ao vivo. Assim, várias pessoas colaboraram conosco ao longo do tempo. Atualmente, temos a honra de trabalhar com a Vênus e a Clarissa, duas musicistas incríveis que trazem criatividade e experiência para a banda.
“Time to Kill” aborda temas poderosos e sombrios, especialmente relacionados à resistência feminina. Como vocês transformaram essas histórias em músicas tão intensas e viscerais? Poderiam compartilhar um pouco do processo criativo por trás do EP?
Cada letra da Murderess tem um significado muito forte para nós. Eu e a Cláudia escrevemos a partir das nossas experiências como mulheres em um mundo violento, que muitas vezes nos trata como seres inferiores. A música é a nossa forma de expressar essas histórias e experiências, que de outra forma seriam apenas dor. Toda mulher já passou por momentos viscerais, momentos em que tememos pelas nossas vidas. São experiências que muitas vezes nós não conseguimos colocar em palavras, A Murderess é uma tentativa de aguentar essa realidade contando a história de mulheres que, contrariando as expectativas, reagiram de forma brutal
A mistura de death, doom e black metal dá à Murderess uma identidade única na cena underground. Quais foram as principais influências musicais e pessoais que moldaram o som da banda?
Essa pergunta é sempre difícil porque temos muitas influências, dentro e fora do metal. Cada integrante traz um mar de ideias e experiências, e somos muito abertos a experimentação. Não buscamos seguir um modelo específico, o que nos permitiu criar uma mistura orgânica dos subgêneros que mais gostamos: death, doom e black metal. Essa liberdade é o que dá à Murderess sua identidade. Nossas referencias estão mais nas atitudes de bandas como Sepultura e Valhalla.
As faixas do EP exploram temas profundos como feminicídio e empoderamento feminino, além de referências mitológicas e históricas. Como esses elementos se conectam à visão artística da Murderess?
A verdade é que Murderess não fala sobre feminicídio, falamos sobre mulheres que mataram homens para não ser assassinadas, mulheres que resistiram aquilo que a maioria das mulheres não resiste. Nós vivemos com medo a todo momento. Não importa se estamos na rua a noite, de dia, longe de casa ou até mesmo dentro da própria casa, nós estamos sempre vulneráveis a uma cultura que mata e viola mulheres. Falamos de casos reais de mulheres que mataram seus maridos abusivos, ou que mataram fascistas na guerra defendendo seu povo, mulheres lendárias e mitológicas que tiveram o estado de espírito de se defender das brutalidades dos homens.
Essa é a razão pela qual a banda existe, isso tá completamente ligado a nossa visão artística. Principalmente porque dentro da cena do metal, somos acostumadas a ver letras, capas de discos que retratam a violação do corpo feminino ou a hiper sexualização do mesmo. Então quando falamos de homens mortos, sentimos como uma “pequena vingança” à esse costume.
Brasília tem uma rica tradição de mulheres no metal, com bandas como Volkana, Flammea, Miasthenia, PUS e Valhalla abrindo caminhos. Como vocês veem a Murderess contribuindo para esse legado?
Para nós, é uma alegria imensa fazer parte desse legado. Somos muito fãs da Valhalla, assim como das outras bandas citadas. Sem essas pioneiras, que abriram o caminho, talvez não estivéssemos aqui hoje. Nossa contribuição é continuar fortalecendo a presença feminina no metal e inspirar futuras gerações a ocupar mais espaços na cena underground.
A banda colabora com baixistas experientes da cena de Brasília, como Clarissa Carvalho e Venus. Qual a importância dessas colaborações para a energia e a sonoridade ao vivo da Murderess?
Essas colaborações têm sido incríveis. Clarissa e Vênus são musicistas super experientes, e, acima de tudo, são nossas amigas. Trabalhar com elas é um prazer, pois nos sentimos à vontade para experimentar e criar juntas. Elas trazem sua própria criatividade, muitas vezes modificando ao vivo as linhas já gravadas para adicionar seu toque pessoal.
O metal extremo é um gênero historicamente dominado por homens. Como tem sido a recepção de uma banda com forte representação feminina, tanto no Brasil quanto no cenário internacional?
Assim como todos os outros gêneros musicais, o metal é dominado por homens. Contudo, sempre encontramos brechas onde podemos nos sentir pertencentes. A recepção tem sido muito positiva. Localmente, o público tem comparecido aos nossos shows e nos dado um feedback caloroso. Internacionalmente, resenhas positivas em sites estrangeiro têm sido muito gratificante. Isso mostra que, apesar dos desafios, podemos encontrar nossos espaços.
Quais são os próximos passos para a Murderess após o lançamento de “Time to Kill”? Podemos esperar mais músicas, shows ou outras surpresas para os fãs?
Estamos trabalhando em várias coisas! Estamos gravando o Volume II do nosso EP e finalizando um videoclipe para uma das faixas do “Time to Kill”. Também planejamos lançar o registro ao vivo do show que fizemos no Toinha Brasil, no dia 7 de setembro, quando abrimos para Eskrota e Crypta. Como somos uma banda independente, tudo é feito conforme conseguimos conciliar com nossos trabalhos diários, mas sempre estamos planejando algo novo!
https://www.instagram.com/murderess.band