Tomb of Love: Brasília em Tons de Cinza e Sombras Sonoras

Por: Amarildo Adriano

Brasília, com suas linhas retas e espelhos d’água, é um paradoxo pulsante. Uma cidade de promessas frustradas e glórias envernizadas. Foi nesse cenário de concreto e incertezas que, em 2019, nasceu o Tomb of Love, uma banda que carrega o peso da capital em cada riff e batida eletrônica. Com raízes profundas no underground, o projeto é capitaneado por Luan Lima (guitarras, baixo e teclados) e Thiago Satyr (vocais, programação e theremin). Juntos, eles trazem à tona um som que é ao mesmo tempo um convite ao êxtase gótico e um grito de revolta post-punk.

Com influências que passeiam pelo Goth Rock, Deathrock e Post-Punk, o Tomb of Love é um reflexo sonoro das dores e descontentamentos sociais que emergem do coração do país. O EP de estreia, “A Permanent Reminder of Our Failure” (2019), já indicava o tom: melodias densas e cortantes, perfeitas para quem carrega no peito a melancolia do mundo moderno. Contudo, foi com “Nekropolis” (2021) que a banda firmou sua identidade, mergulhando ainda mais fundo nas águas turvas das influências eletrônicas, flertando com sonoridades quase EBM sem perder a crueza essencial do rock gótico clássico.

Brasília: Uma Necrópole de Sonhos e Sangue

“Nekropolis” é mais do que um disco: é uma ode visceral à cidade que tanto inspira quanto oprime seus habitantes. Brasília surge nas letras como uma Babilônia sem jardins suspensos, mas repleta de torres frias de concreto e aço, erguidas em nome do poder e da ambição desmedida. Em cada faixa, a capital se revela como um túmulo monumental, abrigando histórias de luta, dor e resistência.

A dualidade entre a arquitetura brutalista e as aspirações humanas é traduzida com precisão nos versos e arranjos da banda. Além de abordar a insensibilidade gerada pelo cotidiano cinzento, o álbum presta homenagem àqueles que, ao longo das décadas, entregaram suas vidas para a construção desse sonho de concreto. Não é apenas um disco sobre Brasília; é um retrato fiel da resistência e da resignação que permeiam a vida dos que orbitam esse eixo central.

Além da crítica social, o Tomb of Love aborda temas universais como amor, morte, ódio, sexualidade e espiritualidade. Há um fascínio evidente pelo esoterismo e pela subversão, criando uma narrativa que transcende o ordinário e adentra o campo do sensorial e do simbólico. Com o theremin de Thiago Satyr criando paisagens sonoras etéreas e os riffs de Luan Lima sustentando um peso quase cerimonial, cada faixa do álbum é uma experiência imersiva.

A Nova Rota da Cena Gótica do DF

Com dois lançamentos marcantes em sua discografia, o Tomb of Love não apenas fortalece a cena underground de Brasília, mas também dialoga com um público global que busca autenticidade e intensidade em tempos de desesperança. O projeto se destaca pela capacidade de evocar memórias e sentimentos através de uma sonoridade que é, ao mesmo tempo, familiar e inovadora.

Para os apreciadores do peso sombrio do Goth Rock e das vibrações dançantes do Post-Punk, “Nekropolis” é uma obra essencial. O disco está disponível no Bandcamp da banda (“https://tomboflove.bandcamp.com”), um convite para aqueles que desejam se perder – e talvez se encontrar – nas sombras da necrometrópole.

Discografia:

  • A Permanent Reminder of Our Failure (EP, 2019)
  • Nekropolis (2021)

Seja na escuridão de uma pista de dança ou no isolamento de um quarto abafado pelo concreto, o Tomb of Love convida a todos para um mergulho sem volta nos labirintos sonoros da distopia moderna. Afinal, entre amor e morte, Brasília ainda pulsa sob as ruínas.

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