
Por Amarildo Adriano
A Infiltração do NSBM no Underground
A recente matéria da Rede Globo trouxe à tona um debate urgente: o nazismo está infiltrado na cultura underground? Desde os anos 90, o National Socialist Black Metal (NSBM) tem se espalhado como uma ameaça dentro da cena metal, utilizando a música como ferramenta de propaganda de ódio. O rock e seus subgêneros sempre foram espaços de resistência, contestando sistemas opressivos e servindo como refúgio para minorias. Entretanto, desde os anos 1990, um movimento ideológico tem se infiltrado em parte da cena underground, distorcendo sua essência: o National Socialist Black Metal (NSBM). Trata-se de uma facção dentro do black metal que promove nacionalismo extremo, supremacia branca e discursos neonazistas.
Essa infiltração do nazismo na música underground não é um fenômeno isolado. Durante os anos 1970, o Rock Against Racism (RAR) e o Carnival Against the Nazis surgiram como respostas diretas ao crescimento da extrema-direita e do racismo dentro da cena punk e rock britânico. Hoje, o problema persiste e está mais globalizado do que nunca, encontrando novos canais de disseminação na internet e nas plataformas digitais.
O Problema da Tolerância ao Intolerante
O National Socialist Black Metal (NSBM) é um movimento dentro do black metal que mescla sonoridade extrema com uma agenda política neonazista. Bandas associadas a esse movimento utilizam temáticas como supremacia branca, nacionalismo racial, paganismo e mitologias nórdicas reinterpretadas sob uma ótica racista, glorificação de figuras históricas nazistas, antissemitismo, xenofobia e discursos anti-imigração. Bandas como Absurd (Alemanha), Graveland (Polônia) e Temnozor (Rússia) são alguns dos nomes frequentemente associados ao NSBM, utilizando simbologias nazistas em suas artes de álbum e performances ao vivo. Embora essas bandas sejam rejeitadas por grande parte da cena underground, sua presença ainda preocupa pelo recrutamento de novos adeptos e pela propagação da ideologia neonazista disfarçada de expressão cultural.
Parte do problema com o NSBM reside na ideia de que a música underground deve ser um espaço de “total liberdade de expressão”. Alguns argumentam que bandas NSBM devem ser toleradas dentro da cena metal, pois representam apenas mais uma vertente do gênero. No entanto, essa visão ignora um princípio fundamental: a liberdade de expressão não significa liberdade para disseminar o ódio sem consequências. O silêncio ou a indiferença de partes da cena underground contribuem para a expansão do NSBM, permitindo que suas mensagens se normalizem e alcancem novos adeptos. Enquanto alguns festivais ainda acolhem bandas com tendências NSBM, movimentos de boicote e exposição dessas práticas têm ganhado força.
A Resistência Dentro da Música Underground
Desde os anos 1970, houve movimentos organizados para combater a infiltração de ideologias racistas na música. O Rock Against Racism (RAR), por exemplo, reuniu bandas como The Clash e Steel Pulse em eventos antirracistas. O Carnival Against the Nazis, que aconteceu em Londres em 1978, reuniu milhares de pessoas contra a extrema-direita. No metal, movimentos como Metal Against Racism têm ganhado força, promovendo bandas que se posicionam abertamente contra a presença do NSBM e outras vertentes extremistas. Entretanto, a luta ainda encontra resistência dentro da própria comunidade metaleira, onde alguns defendem a separação entre “arte e política”, mesmo quando a música é usada para propagar discursos de ódio. Bandas como Dawn Ray’d, Panopticon e Feminazgûl têm se destacado dentro do black metal antifascista, resgatando a rebeldia e a inclusão que sempre fizeram parte do underground.
O NSBM tem se expandido globalmente graças à internet. Redes sociais, fóruns undergrounds e plataformas de streaming são usados para divulgar bandas e ideologias extremistas. O uso de plataformas como YouTube, Spotify e Bandcamp para distribuir suas músicas, muitas vezes mascarando suas mensagens para evitar moderação, a propagação de discursos radicais em fóruns como 4chan, Telegram e VK, onde organizam eventos e recrutam novos adeptos, e a venda de merchandising em lojas especializadas e deep web, criando uma rede paralela de financiamento para a cena NSBM, são algumas das estratégias utilizadas. Apesar de esforços de algumas plataformas para remover conteúdo extremista, ainda há um longo caminho a percorrer na regulação desse tipo de material. A pressão de ativistas e movimentos antifascistas tem forçado algumas empresas a tomarem medidas mais duras.
A história da música underground sempre esteve ligada à resistência, não à propagação do ódio. O NSBM é uma tentativa de sequestrar um gênero musical para espalhar uma ideologia nefasta, mas artistas, fãs e organizadores de eventos têm a responsabilidade de impedir que isso aconteça. Se o punk e o metal sempre foram músicas de enfrentamento, é essencial que a cena underground saiba quem é o verdadeiro inimigo. O espírito subversivo deve ser mantido, mas voltado contra sistemas opressivos e não contra minorias. Como dizia o manifesto do Rock Against Racism: “Ame a música, odeie o racismo.”