A Inclusão da Comunidade LGBTQIA+ na Cena Metal e Punk de Brasília

Por: Amarildo Adriano

A cena underground de Brasília cresceu e se diversificou nos últimos anos, consolidando-se como um espaço de resistência cultural e inclusão. Nesse contexto, a pauta LGBTQIA+ ocupa um papel relevante, destacando-se como uma questão central para os debates e transformações na comunidade. Este artigo explora os desafios e conquistas dessa cena dinâmica.

A inclusão de músicos LGBTQIA+ tem enriquecido a cena musical da cidade, trazendo novas perspectivas e discursos. A essência do punk e do metal sempre foi acolher os diferentes, os desajustados e os rejeitados pela sociedade machista e patriarcal. Agora, essa missão se reflete em ações concretas e na valorização de artistas que rompem com padrões tradicionais.

O movimento Queer questiona normas de gênero e desafia padrões tradicionais, transformando as expressões culturais. No meio underground de Brasília, ele se consolidou como uma força relevante, principalmente em espaços alternativos onde a luta por expressão é central. Bandas e artistas queer não apenas apresentam performances impactantes, mas também adotam uma postura política que amplia os espaços de diálogo sobre identidade e pertencimento. Raízes de uma Diversidade Histórica: A representatividade LGBTQIA+ na música de Brasília não é recente. Ícones como Renato Russo e Cássia Eller já traziam em suas trajetórias a luta pela liberdade de expressão e a quebra de paradigmas. No entanto, no cenário underground, temas ligados à sexualidade e identidade de gênero ainda enfrentam resistência.

O Caminho Percorrido e Episódios de Desafios: Barreiras e Superações

A cena local ainda testemunha situações que revelam os desafios dessa inclusão. Durante um show de uma banda cultuada em Brasília, um espectador trans precisou usar o banheiro. Por falta de informação, o produtor ficou sem ação e optou por esvaziar o local para garantir a privacidade do espectador. Esse episódio reflete a urgência de mais informações e orientações sobre como lidar com situações envolvendo públicos LGBTQIA+, especialmente entre membros da velha guarda do underground que ainda estão se adaptando às mudanças. Esses eventos mostram que, embora o ambiente esteja evoluindo, ainda há barreiras a serem superadas para torná-lo verdadeiramente inclusivo e acolhedor. A Visão de “Dureza” e a Resistência Histórica: O heavy metal e o punk cultivaram, historicamente, uma imagem de virilidade e agressividade, sendo frequentemente vistos como espaços hostis a mulheres e à comunidade LGBTQIA+. Entretanto, os mesmos movimentos sempre foram contrários ao fascismo e subversivos por natureza. Bandas com integrantes LGBTQIA+ estão conquistando mais espaço e encontram cada vez mais palcos sem restrições. Isso não ocorre apenas em Brasília, mas ao redor do mundo, refletindo a maturidade da cena candanga e uma nova mentalidade de inclusão.

A Nova Geração e a Mudança de Perspectiva

Hoje, artistas trans e queer ampliam as discussões sobre gênero e sexualidade e atraem novos públicos com mentalidades mais abertas. Isso contribui para a formação de uma plateia cada vez mais livre de preconceitos dentro da cena underground candanga, reforçando o ambiente inclusivo. Como uma artista destacou: “Independentemente da cena, o que tem mais efeito é a renovação do público.” Para ilustrar essa mudança, um músico da cena local comentou: “Hoje me sinto mais à vontade nos palcos do que há alguns anos. Há mais empatia e respeito.” Ele complementa: “Ver pessoas agitando em nossos shows e gritando nossas letras é prova de que o cenário está mudando. A inclusão está se tornando um valor real na música extrema.”

O punk e o metal sempre foram refúgios para quem foge às normas. A palavra “punk”, em sua origem, significava algo socialmente desviante: no inglês de Shakespeare, referia-se a uma prostituta; mais tarde, passou a descrever jovens que vendiam sexo para homens mais velhos. Punk e queer são uma combinação feita na sarjeta: celebram o status marginalizado e rejeitam a sociedade que os rejeita. Trata-se de reivindicar liberdade frente às pressões normativas e hipócritas.

Além disso, o princípio fundamental do punk e do metal sempre foi o “faça-você-mesmo” (DIY). Qualquer um pode ser músico ou artista. Tudo está à disposição para ser rasgado e refeito. Bandas como Kidsgrace e Zuada, que têm em sua formação artistas LGBTQIA+ marcantes, como a travesti Sophia Ferreira, guitarrista e vocalista de Zuada, exemplificam essa filosofia com abordagens autênticas e inovadoras, reforçando o papel da diversidade na música extrema.

Um Exemplo de Representatividade: Kidsgrace

A banda Kidsgrace representa bem essa mudança de perspectiva. Com Vênus Morais, multi-instrumentista trans que participou de projetos como Cihoze, Stringbreaker, Tean Zu, Murderess (live), Evil Corpse e No Breath, e a guitarrista Dabi, que se identifica como não binária, a banda desafia convenções e promove um espaço de autenticidade. Elas mostram como a cena underground de Brasília pode acolher múltiplas identidades e expressões de forma inovadora e inspiradora.

Desafios e Esperança

Ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o metal e o punk sejam espaços verdadeiramente seguros e acolhedores. Enquanto a música pop já consolidou figuras LGBTQIA+ em seu universo, a musica extrema ainda avança lentamente nesse sentido. No entanto, iniciativas comunitárias, como festivais com line-ups diversificados e eventos em casas de shows independentes, são fundamentais para ampliar a diversidade e dar voz a artistas LGBTQIA+. Promover rodas de conversa, oficinas sobre inclusão e incentivar parcerias entre produtores e artistas são ações que podem fortalecer ainda mais essa cena.

Além das discussões sobre inclusão de gênero e identidade sexual, o tema do racismo também deve ser parte essencial dos debates dentro da cena da música extrema em Brasília. Assim como a homofobia, o racismo precisa ser combatido com ações concretas e diálogos constantes. Encontrar fórmulas para erradicar práticas discriminatórias que estão associadas ao fascismo é uma missão coletiva que reforça o espírito subversivo e de resistência que o punk e o metal sempre defenderam.

A visibilidade de artistas como Vênus Morais, Dabi e Sophia Ferreira reforça que representatividade importa e pode inspirar uma nova geração de músicos e fãs. Com perseverança e a renovação de mentalidades, é possível imaginar um futuro onde os palcos e plateias da cena underground de Brasília sejam espaços de liberdade e respeito, refletindo toda a complexidade e riqueza da comunidade LGBTQIA+. A força do punk e do metal não reside apenas em seus acordes potentes, mas também em sua capacidade de se reinventar e acolher diferentes vozes.

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