Miasthenia: Entre História, Metal Extremo e Resistência

Desde 1994, o Miasthenia tem se consolidado como uma das bandas mais icônicas do Pagan Black Metal brasileiro, trazendo uma sonoridade extrema aliada a letras que revisitam a história e a resistência dos povos ameríndios. Com um discurso anticolonial e anticristão, a banda transforma narrativas apagadas em gritos de insurgência, criando um metal extremo carregado de significado.

Ao longo dos anos, o grupo não apenas expandiu sua discografia com álbuns conceituais marcantes, como Supremacia Ancestral (2008) e Antípodas (2017), mas também levou suas ideias para o campo acadêmico, promovendo debates sobre representações de gênero no metal. Agora, com o lançamento de Espíritos Rupestres e uma formação renovada, a banda continua sua jornada de resistência, tanto nos palcos quanto na pesquisa sobre a cena extrema.

Nesta entrevista, conversamos com a vocalista e tecladista Susane Hécate sobre a trajetória do Miasthenia, a fusão entre música e história, os desafios enfrentados pelas mulheres no metal e os novos caminhos da banda.

Desde o início, o Miasthenia construiu uma identidade musical baseada na história e mitologia pré-colombiana. O que motivou essa escolha temática e como vocês acreditam que isso se conecta com o público atual?

Susane Hécate – Em 1994 o Miasthenia surge com a proposta de fazer um som numa linha Pagan Black Metal inspirada em temas de antigo paganismo.Esse é um subgênero cuja temática exige certo estudo e pesquisa, porque com a cristianização do Ocidente os saberes ehistórias de antigos povos pagãos foram estigmatizados e deturpados em demonologias e formas de bruxaria e feitiçariacriadas para inferiorizar, dominar e silenciar qualquer crença, estilo vida ou filosofia que rivaliza-se com a ortodoxia cristã. Nossa escolha pela temáticaameríndia pré-colombiana vem do fato de que ela é muito mais próxima de nós e guarda antigas sabedorias ancestraisque representam fortemente a resistência a essa cristianização forçada e imposta no período colonial em toda a América. Assim, fui cada vez mais me aprofundando em estudos e pesquisassobre mitologias e histórias pré-colombianas e também sobre as histórias de resistência indígena colonial, sempre em busca de histórias inspiradoras para a composição de cenários míticos, rituais e também de luta contra a dominação cristã colonial.Acho que estas histórias entoadas em português tem começado a despertar um pouco mais o interesse do público Metal no Brasil, porque eles tem encontrado algum tipo de identificação e potência nessa temática.

Os álbuns da banda possuem forte carga conceitual e fazem uma releitura crítica da história. Como é o processo de transformar relatos históricos e mitos em letras que evocam resistência e força pagã?

Susane Hécate – é sempre um processo muito poético, livre e criativo, porque envolve uma interpretação e expressão de temas dentro de uma sonoridade e estética agressiva, épica e obscura. Partimos de acontecimentos históricos que consideramos inspiradores e com liberdade poética os interpretamos e também construímos personagens e desfechos que deem mais vida e emoção às histórias, sempre tentando fusionar sonoridade e temática para uma imersão musical mais profunda e potente. O Black metal nos permite não só expressar ódio, raiva e revolta, mas também sentimentos de liberdade, força, coragem e poder, e é dentro destas emoções, proporcionadas pela sonoridade, que vamos transformando relatórios históricos em expressões poéticas mais profundas. Por isso transitamos também pela ficção histórica, não para inventar passados, mas porque é uma linguagem simbólica que se apropria do passado para falar também sobre o hoje e o nós.

Vocês mencionam um tipo de “metaficção historiográfica” em suas letras, que desafia narrativas tradicionais. Como esse conceito se reflete nas composições de discos como Supremacia Ancestral e Antípodas?

Susane Hécate – o Supremacia Ancestral é o álbum que melhor representa a “metaficção historiográfica” em minhas letras. Isso porque cada letra dele é baseada em uma história real, um movimento ou seita de resistência ameríndia à dominação cristã colonial. A metaficção historiográfica acontece quando questionamos a história oficial ou dominante, subvertendo verdades que por muito tempo foram inquestionáveis sobre o passado. Fazemos uma crítica a histórias que construíram os povos ameríndios como covardes, fracos e submissos, ao retratá-los como seres de força, coragem, sabedora e resistência. Ao mudarmos os desfechos dessas histórias, colocando personagens indígenas guerreiros e insubmissos no centro destas histórias, nós estamos expressando nossa crítica e resistência às histórias coloniais eurocêntricas.

Com trabalhos que unem música extrema e pesquisa acadêmica, como foi a experiência de participar do II Congresso Colombiano de Metal? Qual a importância desse diálogo entre academia e cena underground?

Susane Hécate – foi uma experiência maravilhosa e de muitos aprendizados. Fui convidada para ser uma das conferencistas desse evento acadêmico de estudos do Metal na Colômbia para falar das pesquisas que desenvolvi junto à antropóloga Thais Brayner sobre as representações femininas nas letras de autoria de mulheres do Death e Black Metal. Esse campo de estudos ainda é bem pequeno, mas está crescendo e se fortalecendo cada vez mais no mundo todo. Nesse diálogo, os estudos do Metal têm proporcionado pesquisas e discussões acadêmicas muito importantes sobre educação, cultura, política, história, filosofia, literatura, sociologia, psicologia e outros campos do saber, e isso tem mostrado a riqueza cultural e de práticas sociais que vivenciamos ou experimentamos dentro das cenas de música Metal.

O Miasthenia já passou por diferentes formações ao longo da carreira. Como foi a experiência de integrar musicistas mulheres como Ariadne e Aletéa à banda? Qual o impacto dessa mudança para o som e a dinâmica do grupo?

Susane Hécate – tem sido uma ótima experiência. Elas são muito comprometidas e dedicadas. Compartilho com elas muitas das questões que nós mulheres enfrentamos na música extrema e isso nos deu um novo ânimo. Com elas a gente conseguiu também repensar a identidade visual da banda e tivemos a oportunidade de discutir coletivamente todo o processo de composição e produção do novo disco, fotos, encarte e videoclipe com elas. Com certeza isso impactou muitopositivamente na cara e qualidade do novo álbum. Elas são musicistas talentosas e incríveis,se identificaram e imergiram muito bem na proposta sonora e estética desse álbum, trazendo mais potência e agressividade para nossa música.

A banda também tem explorado a Epic Music, como visto no projeto Sinfonia Ritual. Qual foi o maior desafio ao transpor as músicas do metal extremo para versões orquestradas e sinfônicas?

Susane Hécate – o maior desafio foi o de dar complexidade orquestral e ritual às músicas, pensando em cada instrumento de orquestra, sua função e momento exato de atuação, mas para isso contamos com a parceria de Ifall na figura do talentoso Caio Duarte que produziu esse álbum com a orquestração digital de 5 músicas do Miasthenia. Ele conhecida muito bem nossa proposta sonora e temática, porque havia atuado como técnico de gravação, mixagem e masterização dos discos nos quais selecionamos estas músicas. Então ele partiu das trilhas de teclados que usamos nas gravações originais destas músicas, acrescentando novos elementos baseados na guitarra, vocal e bateria, de maneira muito criativa e sintonizada com nossa proposta de dungeonsynth e epicmusic. Ficamos muito contentes com o resultado. Era algo que há anos eu vinha idealizando. 

As letras da banda muitas vezes apresentam figuras femininas em posições de poder e resistência. Qual é a mensagem que vocês buscam passar ao subverter as representações tradicionais do feminino no metal extremo?

Susane Hécate – o feminino é plural e capaz de muita força, violência, resistência e agressividade. Nossas personagens femininas são guerreiras fortes e destemidas, uma imagem muito negada às mulheres, sobretudo dentro do metal, onde o feminino foi muito retratado de maneira passiva, hipersexualizada ou vitimada na violência dos homens. No novo disco “Espíritos Rupestres”, a personagem central é uma mulher indígena ligada à espiritualidade ancestral. Ela é uma guardiã dos mistérios rupestres, uma guerreira xamã, que detém o poder de decifrar as pinturas pré-históricas, evocando os mortos e seus poderes, e promovendo rituais de empoderamento e resistência numa época de escravidão e inquisição colonial. Por isso mesmo ela foi perseguida e aprisionada como uma bruxa, um símbolo poderoso de resistência à cristianização. Bruxas e guerreiras são representações femininas subversivas, abjetas e profanas aos olhos do Ocidente cristão, por isso elegemos essas personagens.

Mesmo em uma cena que ainda reproduz práticas discriminatórias, vocês se posicionam com firmeza e falam sobre liberdade e transformação. Quais estratégias e atitudes vocês acreditam que podem contribuir para uma cena metal mais inclusiva e respeitosa?

Susane Hécate– O que torna a cena metal mais inclusiva é o respeito, mas para isso precisam se desvencilhar de uma série de preconceitos que não se rompe de um dia para outro. E isso só será possível quando bandas que estão fora do padrão tiverem espaço também para se manifestar e serem ouvidas.

O álbum “Espíritos Rupestres” aprofunda ainda mais a conexão com as cosmologias indígenas. Quais foram as principais inspirações para as letras e sonoridades dessa nova fase?

Susane Hécate – a inspiração temática veio de acontecimentos históricos como a Guerra dos Bárbaros, uma grande resistência indígena ao colonialismo que ocorreu entre os séculos XVII e XVIII no nordeste brasileiro.Além disso,nossa inspiração veio de histórias de mulheres indígenas e africanas acusadas de bruxaria e feitiçaria no período colonial e que foram perseguidas, aprisionadas, torturas e assassinadas pelos inquisidores. Recuamos ainda mais no tempo e buscamos também inspiração em tempos pré-históricos, contemplando as pinturas rupestres de guerras e rituais presentes nas cavernas da Serra da Capivara no Piauí. Já a sonoridade segue uma inspiração que há muito tempo é característica da banda, fazemos som em sintonia com a temática trazendo elementos variados que vão do heavy metal ao mais extremo blackdeath metal, passando por sonoridades sombrias e épicas inspiradas em trilhas sonoras de filmes de terror e guerra. 

Quais elementos novos vocês exploraram em termos de arranjos, instrumentos ou experimentações no processo de composição desse álbum em comparação com os anteriores?

Susane Hécate – dessa vez exploramos algumas linhas de vocais limpos e heavy metal, e fiz estes vocais junto com a baixistaAletéa. Também incluímos algumas linhas de backing vocais guturais cantados pela Lith (baterista). Além disso, apresentamos algumas linhas de viola clássica tocadas pela Aletéa que é bacharel em música e toca este instrumento profissionalmente em orquestras. Esse também é um disco com mais solos de guitarra que os anteriores.

O conceito de “feminilidades extremas” apresentado na sua conferência aborda a ressignificação de representações femininas no Metal Extremo. Como você percebe a evolução dessas narrativas ao longo dos anos, tanto no Brasil quanto no exterior?

Susane Hécate – nós fizemos um estudo de letras de metal extremo produzidas pormulheres entre o ano de 2002 e 2021 em bandas norte-americanas,europeias e latino-americanas de death e black metal, e nelas mapeamos uma série de representações de mulheres assassinas, criminosas, insubmissas, livres, armadas, revolucionárias, guerreiras, anticristãs, deusas, bruxas e amantes de demônios. Essas representações constituem o que chamamos de “feminilidades extremas” – performances femininas que se apresentam de maneira transgressora, agressiva e abjetano metal extremo – por mobilizar e ressignificar atributos historicamente negados às mulheres, como os de força, coragem, ousadia,astúcia, insensibilidade, agressividade, crueldade, raiva, razão, vontade, liberdade sexual, protagonismo e resistência. Nesse sentido, o que estamos observando é a presença crescente de novas narrativas lírico-musicais, a partir da autoria feminina no Metal. São narrativas que subjetivam as mulheres na força, coragem e agressividade, rompendo com as representações femininas tradicionais de inferiorização e vitimização das mulheres na cena Metal. O ebook “Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos” onde está publicado o nosso capítulo pode ser baixado gratuitamente aqui: https://www.pimentacultural.com/livro/musica-extrema/.

Comentários finais

Susane Hécate – muito obrigada ao “O Subversivo Zine”, desejo-lhes vida longa e muitas realizações no apoio à cena Metal. Fiquem atentos às nossas redes sociais para mais informações sobre os shows de lançamento de nosso novo álbum “Espíritos Rupestres” pelo Brasil. E para aqueles que ainda não escutaram esse álbum, ele está disponível em todas as plataformas de streaming, ouçam no Spotify, BandCamp e Youtube. Em nosso canal no YouTube está disponível também o videoclipe da música Bruxa Xamã. Agradeço por todo apoio e respeito do underground! 

2 comentários sobre “Miasthenia: Entre História, Metal Extremo e Resistência

  1. Muito boa a entrevista. O entrevistador é detalhista e conhecedor da Banda. Não fez perguntas clichê. E Suzane tem uma bagagem acadêmica para responder

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